Monark, o Sócrates brasileiro
O apresentador seguiu o exemplo do filósofo grego, que preferiu morrer nas mãos do Estado a renegar suas crenças — mas venceu e mostrou que lutar vale a pena
Confesso que não conhecia o professor e cronista Emanuel Silva, que, no entanto, me citou pelo nome e me homenageou neste texto (link), junto com outras figuras, por estarmos dispostos a lembrar a verdade e a justiça, mesmo em episódios "tóxicos" ou "impopulares" (nas palavras dele) como o do apresentador Monark no podcast Flow.
Agradeço imensamente a homenagem inesperada e as palavras.
Mas gostaria de enfatizar algo que vai na linha do que o próprio autor já diz: nosso mérito é apenas fazer o básico em tempos onde isso é considerado incomum.
Dizer que o episódio do Monark é "tóxico" ou "impopular" não necessariamente me enobrece, assim como essas palavras não necessariamente mancham o Monark. As coisas são certas ou erradas em si mesmas. E os fatos são: Monark não fez nada de errado.
Dizer que algo é "tóxico" ou "impopular" é apenas uma afirmação sobre como a multidão está se comportando, não sobre o caráter do alvo. Se a multidão está tratando como tóxico e impopular — eu diria até mais: um bode expiatório, alvo de um massacre midiático, deliberado e chocante — alguém tão moralmente intacto quanto o Monark, isso é um diagnóstico grave — mas a doença está na multidão, e não no Monark.
A verdade é que a multidão doente não escolheu simplesmente uma pessoa neutra para transformar em bode expiatório a ser massacrado, alucinando vilania onde não existe.
A multidão fez, na verdade, uma inversão completa de valores. O Monark não é apenas uma pessoa sem mal, ele é um herói.
Quando eu ou outras pessoas dissemos que ele não tinha feito nada de errado, estávamos apenas apontando o óbvio. Contrariando a multidão? Sim. Mas isso não demanda tanta coragem quanto o que o Monark fez. Ele peitou o Estado. Pessoas muito maiores do que ele já se dobraram. Quantos casos nós já não vimos onde o Ministério Público avançou sobre brasileiros que estavam apenas exercendo a sua liberdade e os alvos cederam, fazendo o que o Ministério Público queria, assinando um termo de ajustamento de conduta para abrir mão da liberdade que o Ministério Público nunca tinha tido o direito de arrancar?
O Monark, sim, é fora do comum. Mesmo sob esse massacre midiático e social, mesmo considerado “tóxico”, e mesmo com o Estado brasileiro ameaçando entrar com um possível processo milionário que poderia talvez levá-lo à falência, o Monark se recusou a se dobrar.
Ele se recusou a assinar um acordo pelo qual ele se veria livre de processo (o canto da sereia da “segurança”) se ele fizesse uma declaração pública renegando as suas ideias anarquistas e declarando que o Estado tinha, sim, o direito de proibir certos tipos de associações ou certos tipos de discursos.
Monark tentou negociar, pedindo que essa cláusula fosse retirada. O Ministério Público se negou e deixou claro que só abriria mão de processar se obtivesse essa declaração. Era o Estado tentando coagir um indivíduo a renegar publicamente suas ideias anti-Estado. (Um escândalo para as liberdades públicas no Brasil, que, para não variar, a imprensa ignorou.)
Monark disse “não”, consolidando-se como o Sócrates brasileiro do século XXI. O filósofo grego preferiu morrer nas mãos do Estado a renegar suas crenças.
Monark fez a mesma escolha.
Mas o exemplo dele inspirou outras pessoas, que o ajudaram nessa luta. Outras pessoas também estavam dispostas a entrar nessa batalha tão importante: a luta pelo direito de pensar e dizer o que se quer, mesmo que isso desagrade o Estado. Talvez principalmente se desagradar o Estado.
A união faz a força. Nesse caso, a união foi tão poderosa que até o Leviatã cedeu: o órgão acusador retirou a acusação, antes que o caso sequer fosse decidido pela Justiça.
Monark se recusou a ceder, levou a luta até o final — e foi recompensado. É o exemplo que nós queremos levar para todos os brasileiros: não cedam.
Se o Monark não cedeu ao Estado — e isso quando estava sozinho, com todos contra ele e toda a vida dele em risco —, você também consegue resistir e não ceder aos cochichos da multidão dizendo que o que você está defendendo é “tóxico” ou “impopular”.
O desafio fica parecendo até ridículo em comparação; e, em consequência, eu me sinto até envergonhado de receber homenagem por esse ato comparativamente tão pequeno, enquanto o verdadeiro herói da história não só não é reconhecido como tal pela sociedade, como é tratado — até hoje! — como vilão.
Ignore o que a multidão diz que é popular: faça como o Monark e fique com o que é certo.


